segunda-feira, 15 de setembro de 2008

De à beira do Tejo para à beira do Reno, Parte I


Quando nos preparamos para viver longe de casa passamos, na minha opinião, por diferentes fases de espírito. Primeiro vem a euforia, o "ai vai ser tão fixe!" e são mil e uma as ideias que passam pela cabeça, desde as festas de despedidas, as visitas dos amigos e uma serie de outros programas, que apesar de talvez um pouco ingénuos e inalcançaveis, fazem na altura todo o sentido.
À medida que começamos a mandar papeis de uma Universidade para a outra vem o stress e o correr contra o relógio para garantir que conseguimos todas as assinaturas e carimbos em todos os impressos, formulários, certificados e documentos cada um com nomes e assuntos diferentes. Quando tudo acalma começamos interiormente a fazer contagem decrescente, "Daqui a um mês já não estamos cá..Não é estranho?", e apesar do bichinho começar a remexer na barriga vamos vivendo o nosso ultimo mês como se fosse outro qualquer mas apreciando algumas pequenas coisas com um carinho especial.

Entretanto o mês passou a uma semana e já temos os bilhetes comprados, a papelada organizada, uma lista das coisas que não nos podemos esquecer! Começam a perguntar "Então e vais fazer um jantar de despedida? Sim, acho que sim, mas depois digo-te qualquer coisa com mais certeza."; as pessoas começam a partilhar e a repetir over and over conselhos e avisos, "do's and don'ts", dicas e opiniões sobre tudo o que implica viver sozinha, cozinhar, lavar a roupa, a loiça, a casa, manter o quarto arrumado ("Sim, lá por tares sozinha não penses que podes deixar tudo numa bagunça!"), e tudo aquilo que se deseja é que se fale de coisas banais. Nessa altura, já se começa a perder a coragem. "Daqui a uma semana já não estou cá..!" e esse pensamento invade a cabeça desde o momento em que se acorda até à altura em que se tenta adormecer, e não se consegue. Telefonemas meio inconvenientes a meio da noite com desabafos e algumas lágrimas que se começam a formar, tudo para ver se, falando com alguém, deixamos de pensar no que nos espera.

Até que chega o dia D. Na véspera preparam-se mentalmente uma lista infinita de discursos e desejos para as ultimas pessoas que nos vão ver, mas na altura em que nos despedimos antes de desaparecer para dentro do aeroporto não nos conseguimos lembrar de apenas um. Mais um ou outro conselho para tentar aliviar o clima, mas sem sucesso. Viras as costas e sabes que a próxima vez que vais ter aquele abraço quente e familiar vai ser passado muito tempo, na altura infinito. Fazes o check-in, as pessoas olham para ti e querem ler-te os pensamentos. Vais para o avião, "oh meu Deus, isto já devia ter descolado há uma hora!", e quando finalmente vai partir só queres que alguém agarre a tua mão e te diga "tem calma". Em vez disso só se vê gente a dormir (sim, há quem consiga adormecer antes do avião descolar!) e o homem ao teu lado evita olhar para ti, de tão desconfortavel que se sente com a tua tristeza. "Agora não há volta a dar".
Chegas. Ligas o telemóvel, "Benvindo à Alemanha!". Pegar na mala ("yes, veio!"), taxi a correr para chegar a tempo de conseguir as chaves de casa. Chamadas a dizer que chegaste. A partir do momento em que entras no táxi, é tudo a mil à hora, e não é por estares num mercedes numa auto-estrada alemã. Um leque bem aventuroso de coisas a fazer que esperas não acabar cedo, porque não queres ter a cabeça livre para pensar. Sentes a necessidade de falar, fazer amigos para garantir que vais gostar de estar aí, e começas a meter conversa com alguém que se sentou ao teu lado. Passado umas horas vão juntos para casa e combinam qualquer coisa para o dia a seguir. Queriam saber como foram os meus dias quando cheguei, eu sei. Mas para isso tinha primeiro de dizer como foram os anteriores. Prometo que na Parte II escrevo qualquer coisa que vos dê coragem, já que agora estão na fase em que se precisa de uns empurroes e a ultima coisa que querem é que eu seja uma drama queen. Mas tenho a certeza que vão concordar comigo pelo menos quando chegarem a Ljubljana e a Nottingham. Agora o que precisam de saber é que custa, mas passa, e quando passa sentes-te feliz e voltas ao estado da euforia e do "Vai ser tão fixe!". Eu sei, porque já estou nessa fase de novo e desconfio que nela vou ficar por muito tempo (cerca de seis meses!). Beijo grande de saudades aqui do centro da Europa, Maria João

4 comentários:

patrícia reis disse...

Vai mesmo ser muito fixe e mantém o blog para que possamos gozar da tua experiência indirectamente. Um beijo P

Maria da Soledade disse...

Gostei de te ver com esse teu ar de quem toma o gosto a uma boa cerveja alemã. Gostei de saber que estás no "vai ser tudo muito fixe" e vai mesmo. Obrigada por transcreveres os pensamentos e emoções que tomaram conta de ti: vão ser, também, úteis.
Um beijo grande Soledade

Unknown disse...

Que grande voo, hem? Toca a abrir bem essas asas e aspirar com força esses ares imensos. Gente aqui neste cantinho do mundo aguarda ansiosamente a parte II. Só pode ser muito especial.
Alles Gute!
São

vani disse...

jay acabei de ler e adorei..dá uma vontade de viver isso tudo também. olha tira umas fotos e manda por mail lol sff,de vez em quando! por aqui são só partidas :( mas mts novidades tb
bjinho grande*****boas aventura**